17/11/2009

spiritual

i.
.

o monge evita o fruto da discórdia,

um figo não respeita a quietude

da casca, se arreganha em falatório

e sexo, o abismo em sua amplitude

.

e o desejo de vingança. o sol acende

maçaricos sobre gangues, famílias:

os deuses cozinham suas demências

sobre o lusco-fusco de uma bacia,

.

enquanto o monge descasca laranjas

e se desperdiça ao lembrar da dança

de uma virgem de cachos espiralados,

.

sardas no colo e menta na garganta,

seu peito engasga no rumor do fim

de um desejo entalado de acalanto.

13/11/2009

bunny no bolha

em homenagem ao apagão: blackout!

29/10/2009

no fim da tarde

tecelãs desfiam um design,

um pano de fundo pros fatos sombrios,

e a tribo ouve tudo a sangue frio.

o cético aceita no cálculo o valor

da prece. as mulheres trazem listas,

as cartomantes embaralham as hóstias

e os santinhos dos incrédulos,

os ascensoristas investem na bolsa,

o assassino celebra o fim da greve,

mas mesmo assim se demite,

depois de um último trabalho

frustrado, um homem incomum

vence um dia terrível de tédio

munido de um controle remoto

e um castelo de cartas de livros.

28/10/2009

crepúsculo

dos dedos se esvaem os níqueis e os anéis,

do rosto se extrai o nexo obscuro dos fatos,

dos desastres e juros se formam as falências,

e se nos bolsos o que sobra é só um punhado

de cizânia e lexotan, não falta o sentimento

de bastante. mesmo que latejem os calos,

me esmaguem o crânio ou se atrase o sedex,

resistirei aos acontecimentos, absorto

e calmo, por ouvir a calvície vicejar

sobre a poltrona de pernas cruzadas.

09/10/2009

ar condicionado

à noite, enquanto leio nas pupilas

dos gatos, estreitas de tão meditativas,

o canto dos pretos, os descaminhos,

um banho de poça, o gosto podre na boca,

me tomam de assalto na insônia e na sede,

apertam o gatilho, (quando algo me faz muita falta),

de fato. e é farto e raso, áspero e macio,

em pele de lince sobre uma lâmina de palavras

conhecidas no gosto da avelã.

25/09/2009

todos os meninos acorrem

credenciados por seus negativos

como requintados especialistas

(aqueles que nos vêem pelos

monóculos)

dispostos a flagrar este eclipse

lombar completo quando

de um mundo de alcatifas

e sedas e malícias

a coluna se alonga abrindo

toda em figos

a mandala tatuada no cóccix

da menina permissiva

11/09/2009

se eu buscasse na vida o sentido

de te dizer da beleza

é cálida com ardor

te diria de uma forma talvez

melhor o mesmo

babando nos teus meios

10/09/2009

raso de cerâmica

entre sete ou oito palmos
um ferroso burburinho de
mal dormidas noites de atroz
apetite e no peito uma
centrífuga de mudas
minhocas sem saída

20/08/2009

Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2009

saiba, Lilian, já que nunca estivemos de meias

e verdades, a virtualidade do desejo

gera desconforto, até em mim,

e à primeira vista, quando o imediato salta

pelas frestas e aos óleos tudo que falta

é uma massagem, o púbis precisa de

um começo de conversa fiada

dos embargos que você faz a si mesma

e à voz basta uma língua aveludada,

sem ser caricata, mais lúgubre

e não menos lubrificada,

para que em nossos maus lençóis

(como num tapete desmontes

se guardam aos montes)

as nossas gargalhadas aticem

a tua realizada lascívia recatada

para si e sem os outros,

ao largo, live, fartos e, portanto,

livres dessa sua vontade de ir embora,

possamos nos lembrar do teu primeiro, múltiplo,

embaraço diante dos fatos,

antes, deixe eu te levar até a porta

18/07/2009

advertência

o cancro ao redor
dos cílios insones
provoca salivação

24/06/2009

parábola

difícil achar o buraco

se a agulha não faz

na palha um fogo

que se ateie

por isso

mais respeito

(devoção talvez)

ao buscar sentido

nesse emaranhado

de pentelhos crespos

rastros - posts