26 de dez de 2007

Marina

ontem
antes do eclipse prometido no jornal nacional
na perspectiva dos negativos de Marina
o adeus rompante
atravessou seu peito
e a Atlântica
bala de um trem
bala cuspida fora dos trilhos
vagões na orla
desvairados
os seus cachos
(calçadão ruivo de pedras portuguesas)
estendiam-se em subidas e descidas
nas subidas e descidas das marés
nos copos descendo tempestuosos dos saltos

o tempo deu saltos
e a oferenda deu volvida
ambulantes estenderam
sob o corpo dormido que o diabo
aquele diabo amassou
cangas coloridas ao raiar da melodia
antes da avemaria quando Marina tinha
o sono abortado pela ressaca

17 de dez de 2007

Mission

A morbid place declines in front of shady colors
which are omens of extinction and I try to see between
those ruins of terror the golden fish which smiles blushing,
hope. I mirror natives’s expectations and they bless my fate.

29 de nov de 2007

Poética Articulatória

Há uma gota de saliva em cada poema.
Sibila suando nos tímpanos.

Címbalo e cítara: a úvula dedilha
e batuca a língua. Backing vocal
vibrando as sílabas, as bandas
se esforçam e esticam o plasma
no organismo que o recita.
O lábio vela pelas pausas,
incita, vírgula após vírgula,
um hiato
— hálito de sobrevida.

Tamboriladas se perfilam e tombam
quando na voz átona seu tônus
definha em um rumor de linfa.

A vitalidade auricular suscita
oráculos ressuscitando timbres.

19 de nov de 2007

Amélia Begins

Stand by me now!,
mas não me deixe
na expectativa
derradeira
imploro!

Faz minha cama
na geladeira
ao menos

mas não me deixe
vitelo gordo para o
pródigo retorno

7 de nov de 2007

Opúsculo das traições

Entre enganar-se e beijar
a face de Jesus uma pisca
dela e lá vai fora da bacia
uma enxurrada. Mentiras
bem contadas (e de pernas
longas) escondidas na manga
sustentam a sanidade como
trunfo bem guardado. Teus

ombros não suportam o mundo
do triunfo das tradições que os
olhos não vêem mas doem
na costela e no cotovelo
latejando o isola três vezes
batidos necessariamente
na face de madeira.

21 de out de 2007

Overlock ou a despeito de uma fotografia de Lilian Borgeat (Cocaïne, 1998.)

A superfície da navalha
na ponta da língua afiada
abre atalhos provoca trilhas.

overlock desvairando as malhas
fissurando, com agulhadas,
(lixa em glândulas sudoríparas

alojadas entre o assoalho
das úmidas e aviadas
cavidades ou nas virilhas

das talhadas e esmerilhadas
pernas nuas — a asseada
beleza virginal das ninfas)

emplastros de saliva e tralhas,
provocando à agoniada
boca um escarro à deriva

dos estorvos dessa canalha
soma de idiomas lançados
às traças corrosivas,

mas algo na goela ralha,
e pela forma enviesada,
natureza indigesta e esguia,

por um triz das serrilhas
escapa de ser triturada,
do ataque voraz das mandíbulas,

embora sejam limalhadas
as traças desprezam a untada
substância de serventia,

ungüento, para entalhadas
fendas de dor coagulada:
bálsamo, silêncio e nostalgia.

6 de out de 2007

Frida Kahlo



nunca pintei em tempos de abutres
sonhos tiranos de revolução,
ao contrário, com flores e agulhas,
palimpsexualizei as cores
repousando no meu corpo um prato
servindo magnólias, self-portrait;
tingi mulheres em alce alçadas
no pecíolo das frutas que a morte
serve descascando e colorindo
na minha cama em bacias metálicas
com o rabo dos olhos mirándome:
julgamento da naturaleza

viva: a verdade refinada
versões de variadas matizes
dançando na ponta do pincel,
flamenco de um só traço e trajeto
com uma castanhola retida,
a língua à míngua, um nó na língua
no solo da boca em convulsões
se debatendo monocromática
on canvas num charco de saliva

21 de set de 2007

Considerações I

A nossa impossibilidade de dizer qualquer coisa sem a maldição que há nas aspas humilha nossa capacidade de ver o mundo como ele é ou queira por justiça ser. A linguagem que abraça em seu regaço acolhedor toda realidade humana parece sufocar-nos com seus cuidados, não vivemos mais longe da barra de sua saia. Esta linguagem nos abraça e, ao mesmo tempo, impede-nos a distância de seu possessivo cuidado. Chegamos em frangalhos aos seus pés reconhecendo que sempre foi ali o nosso lugar, como a imagem do Filho Pródigo de Rembrandt. Ter que pagar o tributo pela sua gratidão insere-nos numa relação doentia diante de tudo que maravilhosamente se dê e queira se relacionar conosco.

11 de set de 2007

POSTCARDS II - The rusty hours


At the rush hour when the quotidian mutilates time’s flow he can reside on sound’s space, where the time was locked from the inside, and he resides. Sometimes, when he stretches himself he gets insights in his relaxed mind. At that very minute he thinks how many minutes were lost in the stressful timemill, rusty hours. "I don’t spend time, because time is monument."

4 de set de 2007

POSTCARDS I - The bewitcher of snakes


The bewitcher balances concrete snakes during midsummer and midwinter. Time after time his music aligns himself to the swinging rattlesnake mood. When the world is lit the bewitcher behaves powerfully, he doesn’t hold up life’s order with his minimalist music, but retains colors from different backgrounds.

30 de ago de 2007

Instante

“Uma semente engravidava a tarde”
Carlos Drummond de Andrade
Co-existe à falência da semente
um instante ermo de primavera.
A lasca intermitente de uma erva
que promove um amanhecer eterno.

O ciclo inacabado de uma flor
transpassado no fruto por desejos
quando acolhe o solo, úmido beijo,
dá início ao breve gozo de ardor.

A chuva, lânguido sêmen do céu,
percebe em espera a vulva, a terra;
viola a nuvem, o hímen, o véu.

Fecundando-a e fazendo fenecer
a virgem ignorância — quimera,
engravidando-a de um tempo de ser.

19 de ago de 2007

Haroldo de Campos e Ricardo Domeneck - sobre poesia

10 de ago de 2007

Pharmakon


do suor da noite
serenada
(lívida)
sobre suas
flores róseas
pólen
somente semente
uma película marrom
(tímida)
oculta
ante bege
casca
(rígida)
polpa amar
ela
doce
(ácida)
dorme nua sob a compota
(frígida)
áspera espera
a véspera de natal




1 de ago de 2007

Papaver somniferum


opiáceas respiram o pólen
pelos poros retendo o poder
das sementes presentes no ventre
prenhe do vento oriente: hélices
entre papoulas desorientam
a bússola e as lentes da mente
sentindo tudo anti-horariamente
caleidoscopizando entropias

e do sêmen, óbvio, da semente
opulenta germina a flor (ópio)
do bem — girassol em Saigon.

30 de jul de 2007

LUTO - Ingmar Bergman

27 de jul de 2007

CUALLADÓ, Gabriel. Niña de la margarita. 1959


18 de jul de 2007

No espaço curvo nasce um crisantempo - Haroldo de Campos

Musa, ensina-me o canto
eterno e abissal.
Musa, escolhe a palavra
primaz e abstém-se
da morte da imagem.

Mastiga e deglute o rolo
amargo à garganta
e faz do silêncio,
cilicioso e corrosivo
de morte e de esquecimento,
furtivo e fugaz
a exemplo da imagem
dos heróis sem nome
sem glória sem genos.

Musa, pronuncia a
sílaba de paz
de pureza e música
capaz de fixar
no tempo o poeta
como as ampulhetas
que protegem os segundos
em sua dança lívida
do sopro do tempo
no calor das horas.

Musa, ensina-me os cantos
que a palavra têm
para que eu, escondido,
morra vivo no seio da língua
da saliva entumescendo
um poemamilo.

9 de jul de 2007

Lauryn Hill


vem e canta, voz embargada
versão unplugged, contrasenso,
acorda meus ouvidos avel
udados, distoando enton
ação de último volume,
drum’n bass. abre essa boca caixa
acústica e rabisca a pauta
dos meus olhos arrepiados,
espelhados de motel, com
batom Avon sangrando injúrias
apaixonadas - agulhadas
estridentes de agudo unha
arranha esta cara vinil
para que eu jamais deixe de
repetir teu som na vitrola em
good times unforgettable.

5 de jul de 2007

greenapple




das maçãs verdes
guardo as sementes
no punho cerrado

para que escape
das linhas pelos
vãos mais macios
das minhas mãos

não só filetes
d’água — córregos
ou lisos grãos
de areia fria

posto que os galhos
continuados
de (sutilezas)
alcem frutos
e (azedoci
cados) soem
tão generosos
quanto os antigos
sinos da igreja
da minha infância

30 de jun de 2007

Beijo


Beijo o mundo como fosse madrugada.
Apalpo as fronteiras do tempo:
delicadeza fotográfica.

Minhas pálpebras pinçam devaneios pubianos
na busca de encravadas memórias
e raízes minúsculas
de arrepios
no ato.

27 de jun de 2007

Ling-Ling


26 de jun de 2007

Binômio de Janis



2 litros de coca-cola, 1 par de óculos, 2 mãos, plantas nos pés — duas e a vontade de jogar ping-poing e tênis. Experiências de dupla-penetração, mas só depois de dar um dois. Narinas obstruídas pela dupla vontade, a de arrotar a corrosiva coca e a de não parar de beber no canudo, apesar de cessar o fôlego.

Tudo isso seria uma chatice se eu e Joplin não fossemos irmãs,
siamesas.

25 de jun de 2007

Cocaïne, 1998 - Lilian BOURGEAT


23 de jun de 2007

Teu torso,
Vênus de Milo,
seduz meu esforço
a recosturar
um novo esboço
marmóreo pro teu dorso.

Minhas mãos sequiosas
tua cútis, de pó
rosa continência
ávida por fertilidade
no torno.

Devolvo às tuas ancas
o que nunca tiveram
contorno.

Como o bicho da seda reteso
teço a manhã, nas maçãs
do teu rosto
e por trás redundantes cachos,
inéditos, inauditos, incólumes
de tenra carna
dura curva

Ao Hades!
Meu legado: penetrar-te, reconduzir-te.
Eu, Orfeu, desejo cegueira.
E teus sempre virgens atalhos
Tornam-se meu beco, meu regaço,
sem retorno.

22 de jun de 2007

I.
a mudez da palavra que te veste
em si nua - grande cartilha agreste
de nuances nonsense, se insinua
oblíqua nos lábios, meu lápis sua

língua nas virilhas, significado
das armadilhas - ambíguas carícias
nas ancas, essas ilhas tão entrelinhas
fingidas desde as margens com hiatos

(casaco de pele de textos, sílabas
feitas com retalhos, tons, narrativas
tônicas, teu clitóris, minha vírgula)

do meu verbo pacato, que demora
no teu seio, guardando das histórias
no olhar, a sintaxe da hora assídua