30 de ago de 2007

Instante

“Uma semente engravidava a tarde”
Carlos Drummond de Andrade
Co-existe à falência da semente
um instante ermo de primavera.
A lasca intermitente de uma erva
que promove um amanhecer eterno.

O ciclo inacabado de uma flor
transpassado no fruto por desejos
quando acolhe o solo, úmido beijo,
dá início ao breve gozo de ardor.

A chuva, lânguido sêmen do céu,
percebe em espera a vulva, a terra;
viola a nuvem, o hímen, o véu.

Fecundando-a e fazendo fenecer
a virgem ignorância — quimera,
engravidando-a de um tempo de ser.

19 de ago de 2007

Haroldo de Campos e Ricardo Domeneck - sobre poesia

10 de ago de 2007

Pharmakon


do suor da noite
serenada
(lívida)
sobre suas
flores róseas
pólen
somente semente
uma película marrom
(tímida)
oculta
ante bege
casca
(rígida)
polpa amar
ela
doce
(ácida)
dorme nua sob a compota
(frígida)
áspera espera
a véspera de natal




1 de ago de 2007

Papaver somniferum


opiáceas respiram o pólen
pelos poros retendo o poder
das sementes presentes no ventre
prenhe do vento oriente: hélices
entre papoulas desorientam
a bússola e as lentes da mente
sentindo tudo anti-horariamente
caleidoscopizando entropias

e do sêmen, óbvio, da semente
opulenta germina a flor (ópio)
do bem — girassol em Saigon.