21 de out de 2007

Overlock ou a despeito de uma fotografia de Lilian Borgeat (Cocaïne, 1998.)

A superfície da navalha
na ponta da língua afiada
abre atalhos provoca trilhas.

overlock desvairando as malhas
fissurando, com agulhadas,
(lixa em glândulas sudoríparas

alojadas entre o assoalho
das úmidas e aviadas
cavidades ou nas virilhas

das talhadas e esmerilhadas
pernas nuas — a asseada
beleza virginal das ninfas)

emplastros de saliva e tralhas,
provocando à agoniada
boca um escarro à deriva

dos estorvos dessa canalha
soma de idiomas lançados
às traças corrosivas,

mas algo na goela ralha,
e pela forma enviesada,
natureza indigesta e esguia,

por um triz das serrilhas
escapa de ser triturada,
do ataque voraz das mandíbulas,

embora sejam limalhadas
as traças desprezam a untada
substância de serventia,

ungüento, para entalhadas
fendas de dor coagulada:
bálsamo, silêncio e nostalgia.

6 de out de 2007

Frida Kahlo



nunca pintei em tempos de abutres
sonhos tiranos de revolução,
ao contrário, com flores e agulhas,
palimpsexualizei as cores
repousando no meu corpo um prato
servindo magnólias, self-portrait;
tingi mulheres em alce alçadas
no pecíolo das frutas que a morte
serve descascando e colorindo
na minha cama em bacias metálicas
com o rabo dos olhos mirándome:
julgamento da naturaleza

viva: a verdade refinada
versões de variadas matizes
dançando na ponta do pincel,
flamenco de um só traço e trajeto
com uma castanhola retida,
a língua à míngua, um nó na língua
no solo da boca em convulsões
se debatendo monocromática
on canvas num charco de saliva