27 de jan de 2008

não é dado ao alpinista
escalar o sermão da montanha
a empreitada é subcutânea

22 de jan de 2008

Canivete sem lâmina

A gramática do canivete
não se dá por vencida, cansada.
Em onze utilidades não cerceia
os dilentatismos do virtuose.
Suas lâminas, desafiadas,
não espelham, limpam
as unhas de uma crosta retrátil.

O canivete sem lâmina,
longe da sonhada aparência
intacta, multiplica enferrujado
o dano que provoca. Se não mata
pelo corte, de tétano assola.

E assim, nas mãos do performer
abre-se e revolve-se em sincopados
movimentos de desdobras, ocultando,
tímido, seu inútil rabo de pavão metálico.

8 de jan de 2008

minha latrina

minha latrina de salto alto
surpreende-se com teu sotaque
castiço. rebuscamentos à parte,
é impecável o charme do vocabulário.
com os olhos rasos, a remelenta latrina,
de assalto, pede penico diante de tão
eloqüente sapiência.

covarde! covarde latrina!
não vê que na surdina esta
gargantilha te enforca
e uma pinça com luva de pelica
arranca tuas lágrimas, latrina!

não é por menos que minha latrina,
pobre latrina!, comporte-se
tão conformadamente, pudera!,
esta tua flor, natural-
mente, na lapela, ao lado das iniciais bordadas
à purpurina
reforçam a ancestralidade
do teu canto de galo
com crista e tudo.

eu, ao menos, tenho fecho-éclair nas narinas
para não cheirar o mofo e o mau hálito
que exalam da correspondência
entre minha latrina incontida e teus hábitos
de paetês e essências carcomidas.