26 de mai de 2008

Itinerário

Tire a roupa; há um tempo para cada coisa anteriormente fixado; execute o ritual como um iniciado. Faça despindo-se de si mesmo, ignore-se como espectador desse espetáculo. Suba no púlpito, abrir o chuveiro é como ajustar para si o microfone. Hesite antes de entrar, é fundamental o intervalo entre o seco e o molhado; afinal são nesses instantes que você é só você. Molhe-se sem esmorecer; definitivamente decida-se. Não seja superficial, use shampoo e condicionador, além, é claro, do sabonete. Repita essa operação, a constância conduz à perfeição. Se não sentir prazer nisso lembre-se que alguns chegam à perfeição pela ascese. Por fim lembre-se que o fim de todas as coisas molhadas é a toalha, e todos que fugiram desse fado foram amaldiçoados pelo mal que rasteja ao meio-dia: a micose.
Enquanto não tomar outro banho não tire a roupa.

17 de mai de 2008

Lagoa Rodrigo de Freitas


13 de mai de 2008

Poesia em percurso – parte II

A expressão que não há nada para expressar, nada com o que se expressar, nada de que se expressar, não há força para expressar, não há desejo para expressar, juntamente com a obrigação de se expressar (Beckett 1999); é sem dúvida uma afronta que conduz ao alargamento das possibilidades de uma linguagem efetiva em poesia, apesar de sugerir imobilidade. Mais que uma afronta, é um convite. Diante disso, tenho me imposto a necessidade de experimentos que, a exemplo de Beckett, cavem buracos na linguagem, a fim de esvaziá-la de sua força expressiva para, paradoxalmente, expressar. Um caminho que decidi percorrer é o do trabalho a partir de certas carências auto-impostas. O poema qual fruto de uma carência da própria linguagem, com reticências e aproximações. Reticências, pois se furta à corrente do fluxo da fala cotidiana, e de sua sintaxe. E aproximações, pois busca no fluir da vida cotidiana um vocabulário de identificação com o leitor. O primeiro passo neste percurso, é o do poema sem verbo, mas não absolutamente sem transitividade, posto que há a imposição da legibilidade. Decerto, não alcançarei meu objetivo, mas pretendo cavar a linguagem desvirtuando sua virtuosidade, para enfim, alcançar novas possibilidades. O interessante nessa proposta, e tenho percebido isso nos exercícios que tenho feito, são as sensações de carência e angústia provocadas pela ausência. Daí uma "nova" possibilidade para se parar de escrever poemas que sejam belos. O belo ainda nos interessa?
Tentativas frustradas:
I.(muito frustrada)
cão de estampas
em preto e branco
dálmata
gato
siamês em si mesmo
aristocrata
antagônicas cenas
um mesmo enquadre
doméstico
instinto em abrigo
sem arbusto (e portanto sem susto)
mas com a lacuna
imprevisível do hábito
II.(não tão frustrada)
dias sem caráter de domingo
melancolia como método,
monotonia e sonolência.
veloz, veloz, veloz ansiedade
do sono e de seu silêncio
tagarela, simbólico:
cinematográfica a visão
sonâmbula, susto,
da morte em queda
livre, suicídio sem dor
e sem motivo: despertador
centrípeto ao pesadelo, ou sonho.
solo e lençol, sem sangue, os mesmos.

7 de mai de 2008

Poesia em percurso - parte I

Como escrever um poema legível?! Esta foi a pergunta que me fiz hoje, e não sei ao certo se provocado pela minha atual inaptidão para a tarefa ou pelo pessimismo em reverter este quadro: ressentimento. Uma coisa é certa: o texto precisa ser legível. Caso contrário, afina-se com quaisquer dessas verborragias com as quais nos deparamos e chamamos de poesia (em estado bruto?!, eu diria bárbaro). Desnecessário dizer que em muitos casos as encontramos na disposição de versos. Soa irônico? Mas é para soar mesmo. Poesia pode ser difícil. Literatura também. Ler não. E essas cristalizações tornam-se gasosas a partir dos escritores, e aí não há crença alguma em expressividade, mas em comunicação epidérmica. Se a poesia é relevante é legível, e não mais ou menos legível que outras manifestações lingüísticas, mas legível ao seu modo. Esta é a fórmula: legível = minimamente relevante. Mas e o papo de que a poesia, bem como outras artes, não tem finalidade? Antigo, ultrapassado, cansativo. A questão a ser colocada é: em que medida a legibilidade é comunicável? Há algo comunicável, em alguma medida?! Como comunicar em legibilidade dentro de uma lógica da não-comunicação? O poeta, sem alcunhas, precisa dar ao seu trabalho – nesse caso falo de quem quer fazer algo com alguma preponderância – a importância que deve ter, não a que tinha, e muito menos nenhuma - quando se é ilegível por inocência e não por contingência.