29 de ago de 2008

Ameríndios

para Naná Vasconcelos
i.
o índio batuca nas nuvens
e adianta o destino da chuva

faz asteriscos e riscos
tornarem-se chuviscos
estreitando o abismo
entre o som da chuva
e
o eclipse da lua
escondida no riso largo
metálico e terrível do jaguar

ii.
esgotado da estampa
de tigres aguarda
no dorso do percevejo
com a flecha em fio

no berimbau

os mesmos saltos
sem silêncio e silvo curto
das cigarras
que põem o sol no grito

iii.
meditado sob a cachoeira
o pajé erguido sobre as pernas
compridas e trançadas
em pétalas de flor de lótus
desconjura as jibóias
ocultas no cerrado
sem chocalhos


12 de ago de 2008

Cotidiano de Kate em 4 takes

pela manhã

com um lenço de papel
enxugou na lágrima
do peixe um chuvisco

a tarde

abrindo as cortinas
ajustou seus dois ponteiros
ao sol de cerâmica

durante a noite

aos gatos suspensos
na ponta dos pés dançou
jazz sobre o telhado

na madrugada

adormeceu seus morcegos
e apostou no pôquer
a alma em segredo