27 de nov de 2008

as estrelas deitadas nas poças
não esperam teus altos saltos
as flores só servirão aos poetas
se puderem ser comidas
entre(tendo) teus dentes
às vezes
aos cravos
as palavras brutas
conjecturam a decoração rústica
escrita ciclicamente em guirlandas
trocando com teus mamilos
o gosto e o lugar
dos brincos

23 de nov de 2008

& a mulher

eu & a mulher de 31 dias

não temos amor ou tumor

artigos de luxo e sex-

shop. coisas de dizer

discordando de si.


eu & a mulher do ano bissexto

em todos os calendários

não usamos despertador

acordamos (no tato) um susto

dispostos pro descanso.

conversas de travesseiro

são motivos de dormir.


eu & a mulher da hora do rush

não cantamos no chuveiro

faça chuva ou faça sol

compomos na cama

canções populares

não acontecem diariamente

(como as que nos calam)

com vontade.


pois se eu & a mulher

falássemos tudo em 31 dias

compraríamos um gravador

para dizermos tudo sempre,

até as coisas de omitir

gargalhando de si.


o bom é que eu & a mulher do ano bissexto

e de olimpíadas e de copas do mundo

dia sim, dia não e dia talvez

usamos relógios de muitos ponteiros

e toda hora é hora

de perder a pontualidade de ir

embora. coisas de sonho

são kisses and cakes

fora da data.


o que me salva do engarrafamento

é a mulher na hora do rush

dedilhamos até nas coceiras

e não nos faltam instrumentos

ou passatempos de jornal

(vista grossa em 7 erros):

há sempre um contexto

pra se adivinhar nas canções.


eu & a mulher somos os mesmos

discordamos juntos.



10 de nov de 2008

falocêntrico

se as vértebras de Maiakóvski

formam uma flauta de executar

meus poemas possuem testículos

pra chacoalhar teus tímpanos

(a música soou nos poros

no estio do choro)

ao dedilhar as cordas do chicote

(enquanto)

a flauta de Maiakóvski

indigesta na espinha

entala versos de início

(e de cio)

eu forjo um metal

de gaguejar teus brios

(e fincar no busto)

se é isso que nos fez humanos

se é o grito que determina a evolução

das espécies

minha flauta vai te assoprar

no ventre

(e estourar teus ventrículos)

6 de nov de 2008

Fac-símile

Todo casal — perfeito como nós — sabe:

a alegria é uma contagem regressiva.

Ontem no porão, organizando papéis

de carta e bijuterias, cafonas como o diabo,

li, fingindo que já sabia, promessas

não cumpridas. Quando não fingimos?

Quando não fingimos fugimos. Sejamos

sinceros, nossas afinidades eram

químicas (eu era tarja preta e você bulímica),

nossas secreções nunca foram íntimas

(eu transpirava e você cuspia), teus recados

nunca me foram dados (e daí os atrasos)

e aquela música, aquela!, cheia de rimas

pobres e dissonâncias — bossa — te ofereci

para conseguir o que não tinha, na verdade

fiz foi pra empregada, mas você jurava

de pés juntos e dedos cruzados que dormia.


No problem, baby, hoje vivo sem dívidas

e passo ao largo da escrivaninha pra não cair

na tentação de te olhar os olhos.

Não navego em pálpebras marejadas.