26 de dez de 2008

acupuntura

para Vanessa Gouveia

.

se a menina dos meus olhos fosse Elizabeth

Bishop eles seriam violetas (na verdade

roxos — cor comum às mulheres

violentas que fazem ficção

sem caprichos) mas não são

castanhos

como a sua pele

se recita

em mim e sempre fala

com a boca cheia

de gengivas

e camurça e palavras insinuativas

(ditas depois de muito serem faladas)

pois todo castanho é interstício

ao dizer que os liquens do shampoo

de Bishop não passam de lêndeas

e é você que raspa a minha superfície

e despenteia meu juízo

em carne e em espírito

com um pente fino de alfinetes

e fogos de artifício

17 de dez de 2008

Atitude

Hj, às 18 horas, na TVE Brasil, no programa Atitude, estarei discutindo o tema "nudez na mídia", a partir da provocação do manifesto de Pedro Cardoso. Assistam!

14 de dez de 2008

arca de noé

“O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra,

e teve o coração ferido de íntima dor”

Gênesis

.

Diz a canção: only the strong survive. Aqui, ao contrário, estes são os que dão cabo da própria vida. Somos 48 em um incômodo de 6X6 — privilégio para os padrões nacionais. Não há lugar algum em que o humano sobressalte mais que aqui. Todos os relevos de caráter são tomados de encontro no passeio do olhar e no caminho da convivência. A conivência se torna necessária, e aqui a chamamos solidariedade. Cada corpo precisa de permissão, no movimento de no mínimo quatro outros corpos, para realizar sua mudança rotineira de posição. Formam as fisionomias e as posturas a sua coreografia incorrigível do atrito, em posições coordenadas, a exemplo da estética da engrenagem interna (o organismo) do relógio. Aguardamos e o tempo se espreguiça entediado pela mínima margem de manobra permitida pelo espaço estriado das duras penas. Imiscuídas ao cubículo, as perpetuidades são medidas aos palmos. Não se tem notícia de lugar mais um onde o tempo seja de tão saliente importância. Ainda que o sono seja intermitente e as horas sejam sempre insuficientes, a despeito do ostracismo inevitável, o descanso se confunde com os instantes de descaso do corpo com a condição em que se encontra. E esta é a única condição de folga. Aliás, por alguns instantes – mais oportunidades ou mais empenho nos estudos –, muitos dos que aqui residem vegetariam em um quarto particular, ou seja, escolheriam um destino, no contorno largo de um fio de cabelo, distinto. As opções são as mesmas que em gaiolas, exceto a possibilidade da procriação. As excreções são a única opção de lazer, e para isso cabe contribuir com o prazer alheio, nos dias estipulados pelos maiores escalões da cela (o pessoal da janela). A visita ao sol, não emoldurado, é realizada em intervalos de um dia, interpolada com os dias em que se concede água em quantidade necessária para um banho. As duas refeições diárias propõem um pacto desonestamente unilateral: elas nos mantém vivos para que nos matemos uns aos outros. Somos visitados em períodos contados por precisos de 7 movimentos completos do sol, durante algum tempo somos retirados do contato de nossa família para emprestar à avaliação nosso rosto barbeado e nossas tatuagens, aos desconhecidos que nos dão copiosas misericórdias que não suplicamos.

7 de dez de 2008

Alice - antiga e nova versão!

ao mastigar as horas

amargo as demoras

a cumbuca vazia

de açúcar e sal

e a falsa alegria

do pôr do sol

são a vida insossa

e a nossa lida

a dança das cortinas

ao evaporar o som

das brisas melódicas

o vácuo da sensação

e o sussurro das gralhas

angustiadas pelo outono

tudo absolutamente

concomitante à

ausência do olhar

cadente de Alice

dos olhos de Alice

cintilam eucaliptos

incandescentes

.

.

Este poema, um dos mais antigos que escrevi, já sofreu inúmeras revisões. A versão acima é a mais atual. Sua primeira versão, de 2005, foi publicada no Jornal Plástico Bolha. A primeira versão está postada, como homenagem, no blog do Bolha. Visitem o blog do jornal de literatura mais estourante que há!