28 de jan de 2009

ressonância

há duas coisas certas a teu respeito

e de teu nome monossilábico

em primeiro lugar na areia

suas letras de fôrma não se conjugam

com a fome de correção que desperta

na minha ortografia íntima

.

e permanece

.

como a lua em suas fases

de um mesmo vídeo-game

mesmo que ao sabor das ondas e águas-vivas

que nada são além de farelos

de um enorme biscoito água e sal

o que me fez chegar à segunda conclusão

teu sabor é sério e teu ritmo é agudo

perigo maior para a pressão que sofro

se o mar é em sua maioria inexplorado

um paradoxo é exato

(assim como o sexo das baleias

que se desejam a despeito de seu peso

e ejaculam até dos pulmões)

apesar de toda a sua liquidez

o mar resseca todos os meus cabelos

e garganta

tanto quanto se racham meus lábios

ao te chamar por dentro

da concha que se roça na orelha

ou na vitrola

24 de jan de 2009

Sal de frutas

para Marília Garcia

.

entre (o imperativo)

e os fogos de palha

reverberam algumas

luzes e malabares

e se existissem cartas na mesa

seriam postas discretamente —

e a verdade sobre o nosso caso

e o crime sob a tua confissão

e a varanda sobre aquela vista

e o supositório dentro do orifício

— como os ovos se colocam

apesar do sacrifício

entre (a preposição)

as plásticas e as cicatrizes

mas como um bom e velho vivant

eu embaralho o meu rosto

das maçãs até às espáduas

entre os teus dedos de roleta russa

e muitos anéis que por sorte não matam

e aos poucos dissolvem nossa união soviética

em um só veredicto do sal de frutas

22 de jan de 2009

apego malogrado

submisso a uma ferradura, um olho

nos observa boiando no copo de geléia

(ou será que a alma do boi fechou suas janelas?),

enquanto conspiramos uns segredos

da felicidade entre murmúrios

e burburinhos de uma festa que talvez

nos surpreenda, com ou sem calafrios.

porém, o que não deixa dúvidas é o súbito

despeito por perder o destaque na parede

para um berrante tão ou mais antiquado quanto

nossos antigos hábitos bucólicos de carne

vermelha e fumo mascado.

ou será que é tudo tão melhor agora

(pra nós, ao menos) já que ao seu

redor lhe falte um corpo?