29 de out de 2009

no fim da tarde

tecelãs desfiam um design,

um pano de fundo pros fatos sombrios,

e a tribo ouve tudo a sangue frio.

o cético aceita no cálculo o valor

da prece. as mulheres trazem listas,

as cartomantes embaralham as hóstias

e os santinhos dos incrédulos,

os ascensoristas investem na bolsa,

o assassino celebra o fim da greve,

mas mesmo assim se demite,

depois de um último trabalho

frustrado, um homem incomum

vence um dia terrível de tédio

munido de um controle remoto

e um castelo de cartas de livros.

28 de out de 2009

crepúsculo

dos dedos se esvaem os níqueis e os anéis,

do rosto se extrai o nexo obscuro dos fatos,

dos desastres e juros se formam as falências,

e se nos bolsos o que sobra é só um punhado

de cizânia e lexotan, não falta o sentimento

de bastante. mesmo que latejem os calos,

me esmaguem o crânio ou se atrase o sedex,

resistirei aos acontecimentos, absorto

e calmo, por ouvir a calvície vicejar

sobre a poltrona de pernas cruzadas.

9 de out de 2009

ar condicionado

à noite, enquanto leio nas pupilas

dos gatos, estreitas de tão meditativas,

o canto dos pretos, os descaminhos,

um banho de poça, o gosto podre na boca,

me tomam de assalto na insônia e na sede,

apertam o gatilho, (quando algo me faz muita falta),

de fato. e é farto e raso, áspero e macio,

em pele de lince sobre uma lâmina de palavras

conhecidas no gosto da avelã.