22 de out de 2010

Do abortivo e seus sintomas

A miséria não me escandaliza se sou religioso? O que me escandaliza é o ataque contra a vida, o abortivo? A fome é só mais uma contingência da insanidade do descontrole da natalidade? Sem dúvida, não quero, e nem preciso, dar mais relevo ao perigo que se coloca nas perguntas acima. Veja bem, não desejo tomar um ou outro partido. Acredito que minha posição esteja clara. Endereço-me e peço um pouco de atenção ao que, nessa disputa em torno da questão do aborto, tem força no debate que decidirá o novo presidente da república durante os próximos quatro anos, mesmo após pronunciamentos claros de concessão às reivindicações do eleitorado cristão. Isto é, a perseguição contra a candidata do governo e o uso da matéria do debate como panfleto político. A defesa da vida é pornograficamente utilizada na agenda de campanha da oposição, aprovada pelo alto magistério da Igreja (o caso do Bispo de Guarulhos e o apoio a ele dado pela CNBB), e inscrita como matéria de escândalo, chaga incurável, no seio de grande parte do eleitorado laico cristão, sobretudo de orientação católica.

Sem recorrer a falácias biopolíticas, bioéticas ou biomédicas e alforriado, concomitantemente, da necessidade de discutir a validade do dogma e sua apologética, desejo pedir um pouco de atenção ao fato de que é a constatação de uma imoralidade, a de propor um debate a respeito da legalidade do aborto, que obscurece a despreocupação com outros dispositivos de ataque à vida, como o desprezo pelas condições de miserabilidade em que vivem muitos brasileiros. Pois bem, pode-se na própria defesa dizer que a Igreja não descuida dos inválidos e desfavorecidos com suas capilares e incontáveis manifestações de solidariedade e filantropia, no entanto, o que gera escândalo é o aborto. O que mobiliza a uma tomada de posição firme, corajosa e comprometida com a vida humana e sua centelha de sagrado é o incoformismo com o debate de um dogma, não no âmbito da crença, mas no âmbito do direito e portanto da propriedade. Acredito que seja somente esse o motivo da revolta ou o objetivo das vociferações contra Dilma Roussef. Imoral. Sinto-me, não sei se por força de minhas crenças, questionado com o panfleto contra o aborto, donde se deve ler “só assim se pode ser cristão e a favor da vida”, utilizado no semblante angélico do candidato da oposição na campanha e suas visitas regulares a basílicas, casualmente, no dia 12 de outubro de 2010. Hosanna in excelsis Dei.

Se isso não é sintomático eu desacredito de qualquer diagnóstico de agora em diante, e a despeito de tudo, me sentirei encorajado a não parar de fumar. Digo isso enquanto alguém que tenha votado na coragem de um candidato, que não conseguimos levar ao segundo turno, e não na fragilidade de suas propostas políticas. Estava utopicamente desejoso de debate, mas sempre me esqueço de sua interdição. Digo também como ex-seminarista da Arquidiciose de São Sebastião do Rio de Janeiro. Pois bem, estou perplexo com o caso. Há a configuração de um estado de perplexidade comum, a mim e a CNBB ao menos, em torno da questão gerada por condições muito particulares e endereçada de maneira muito idiossincrática. Isso não quer dizer, porém, que nessa dialética do umbigo muitas coisas não tenham passado batidas, justamente por não ter “nos” escandalizado. Talvez esse escândalo (não) se propicie somente pelo rompimento de uma moralidade qualquer. Vejo aí, nessa questão, o ponto crucial (sem trocadilho ou crocodilagem).

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Luiz Coelho é mestrando em Literatura e votará na Dilma por força de suas circunstâncias.